[Crônicas de Quinta]: Estou ausente de mim

By Luciana Souza - Maio Literário - 10:00

Estou ausente de mim.

Parece clichê eu sei, mas a verdade é que não me lembro exatamente como cheguei a essa situação, ou melhor, como me deixei chegar a essa situação onde o fundo do poço é mais confortável que minha cama mesmo nos dias em que só sei dormir. Sempre fui o tipo de pessoa que se mantem em pé independente da situação, que não gosta de demonstrar fraquezas para ninguém, afinal cada um sabe os demônios que enfrente e a sociedade não precisa saber disso. 

Minhas barreiras foram derrubadas.

Já faz um tempo que venho notando isso, que já não há mais barreiras, que já não consigo mais me manter em pé, mesmo tentando firmemente todos os dias. A verdade, eu acho, é que simplesmente deixei tudo ruir ao chão na esperança de que algo ou alguém finalmente me ajudasse a juntar os pedaços. Isso não aconteceu. Mesmo deixando as mascaras caírem continuo não demonstrando minhas verdadeiras intenções ou pensamentos, me escondi por tanto tempo que parece uma ofensa deixar que as pessoas saibam como realmente sou ou o que ando sentindo.

Já não caibo mais em mim. 

Por mais que eu tente me recompor me sinto transbordar cada vez mais, do tipo que não há controle. Me pego em lágrimas as  vezes sem motivo aparente mas que me traz um alivio daqueles que um medico sente ao acabar de salvar uma vida. A verdade é que deixei a rotina acabar comigo. E continuo a deixar. Não sei como mudar e as vezes acho que não quero mudar, por medo de recomeçar e perder tudo que de certa forma conquistei até aqui. Não faz sentido eu sei, sempre digo belas palavras a quem precisa e o encorajo a ter coragem e aceitar que as mudanças são para o nosso bem, mas não consigo ser assim. Eu já tentei. Acho que no fundo sou o tipo de pessoa que prefere observar o voo alheio do que voar propriamente.

Sinto que já não sou mais a mesma, mais uma vez. Só que sinto que dessa vez está tudo pior um pouco, sinto que não vou conseguir me levantar dessa vez, que aderi a poeira daquele velho comodo e me tornei meras lembranças de um passado distante. Já não sou mais eu. Já não caibo mais aqui. Estou ausente de mim. Perdi tantos pedaços ao longo da jornada que cola nenhuma pode consertar. Me perdi o longo dos anos e agora tudo parece difícil de se reencontrar. Estou vazia. Estou perdida. Estou ausente de mim.

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11 Comentários

  1. Ual Luciana que texto lindo, amei...[Me vi em cada palavra...Sinto assim ultimamente...
    Mas vou me reerguer...
    Bjs!!

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  2. Acho que todos já nos sentimos perdidos assim. Eu adorei seu texto! <3

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  3. Mas sabe de uma coisa? Todos os ausentes, uma hora ou outra, acabam voltando. Esta é a lei natural da vida e das pessoas!
    Então quando menos você esperar, vai dar de cara contigo batendo à porta e mais uma vez, saindo para viver!
    Beijo

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  4. Nossa Luciana!
    Texto bem escrito, porém tão melancólico...
    Ausência de si mesma deve ser terrível.
    Tantas possibilidades para melhorar e sair desse quadro...
    Desejo um ótimo final de semana!
    “A força não provém da capacidade física. Provém de uma vontade indomável.” (Mahatma Gandhi)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA AGOSTO - 5 GANHADORES - BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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  5. Ah, esse estado "ausente de mim" é tão nebuloso e vazio, e tão difícil e complicado de sair... Sem bem como é...
    Amei o texto, parabéns!

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  6. Olá!
    Que texto!. Me faz pensar em uma época minha que já não fazia sentindo vive a vida, parecia que tufo para mim era péssimo, horrível, mas hoje sei que isso é só uma fase e que devemos sempre ergue..Parabéns pelo texto!

    Meu blog:
    Tempos Literários

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  7. Que intenso!
    Demonstra bem aquela fase horrenda e ao mesmo tempo necessário de nossas vidas, em que nada faz sentido, tudo dói.
    Adorei!
    bjs

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